De “Zé do Caixão” a “Morto não fala”: o terror no cinema brasileiro

A evolução do cinema é acompanhada pela transformação do homem. A sétima arte sempre ofereceu uma possibilidade de expressar a criatividade e as loucuras da mente humana. Filmes de terror, especificamente, refletem o lado mais sombrio da psique: o medo. O medo da criança, irracional e muitas vezes reprimido, é explorado nesses filmes repetidamente. Da mesma forma, imagens do inconsciente reaparecem: o palhaço, a criança, o boneco. Ao longo da história, subcategorias como o “slasher” e o “gore” mostram imagens cada vez mais escatológicas e explícitas. 

Ao comparar um longa-metragem de 1960 com um de 2019, é evidente que tabus, censuras, e os bons costumes foram decisivos no conteúdo dos projetos. Apesar disso, há um aumento no número de pessoas que querem ver esse tipo de filme. O gráfico do site de pesquisa de cinema, The Numbers, mostra que apesar do número de ingressos vendidos por ano tenha caído gradualmente, a porcentagem dos filmes de terror oscilou, e apresenta um crescimento significativo nos últimos cinco anos.

No Brasil, talvez o maior nome em filmes de terror seja o cineasta, José Mojica Marins, 83 anos, mais conhecido como Zé do Caixão, personagem mais famoso do diretor. Marins é responsável pelos maiores clássicos do cinema brasileiro de horror, títulos como "À Meia-noite Levarei sua Alma", "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver", "O Despertar da Besta" e "A Estranha Hospedeira dos Prazeres" são apenas alguns na extensa filmografia de Marins. Se consolidou assim, no final dos anos 60, um terror autenticamente brasileiro, pessoal, mas ainda precário, ainda configurada pela presença da pornografia. O alcance desse universo, todavia, foi grande, e o Zé do Caixão se espalhou para outros meios midiáticos, como quadrinhos e a televisão.

Joaquim Ribeiro de Castro reconhece que o público hoje recebe filmes de terror com mais aceitação. No entanto, produções brasileiros ainda não fazem o mesmo sucesso que as norte americanas. De acordo com ele, bilheterias nacionais não rendem tanto quanto as estrangeiras, mas que isso se dá a partir de uma rejeição do cinema brasileiro em geral. De Castro afirma que seria necessário investir mais na divulgação do longa para que haja uma procura maior.

Segundo dados da ComScore, a bilheteria de It: Capítulo 2” bateu recorde no Brasil ao faturar R$ 4,86 milhões, e acumular R$ 41 milhões em bilheteria. Ao mesmo tempo, “De Pernas pro Ar 3” tem sessões canceladas para passar “Vingadores: Ultimato. ” Porém, festivais de cinema parecem atribuir um crescente prestígio a filmes de terror. “As Boas Maneiras” de Juliana Rojas e Marco Dutra, por exemplo, inaugurou o Festival do Rio de 2018. Já a professora Laura Cánepa defendeu a tese de que a tradição espírita no Brasil torna mais difícil o sucesso de filmes de terror, porque as entidades são vistas como salvadoras.

No entanto, pode se argumentar que o cinema brasileiro vive, até hoje, a fase mais promissora para produções desse gênero. Em 2018 foram três lançamentos, "O Juízo", de Andrucha Waddington, com Fernanda Montenegro e Lima Duarte no elenco, "Morto Não Fala", de Dennison Ramalho, e "O Animal Cordial", com Murilo Benício e Camila Morgado. O cineasta Paulo Biscaia Filho trabalha com filmes de terror há mais de 20 anos, e compartilhou em entrevista à revista UOL que percebeu a diferença no cenário atual quando se trata de financiamento para a realização desses filmes:

"Recentemente soube que minha produtora foi aprovada em um edital de R$2,2 milhões para meu próximo filme. E eu não só fiquei muito feliz por viabilizar meu filme, mas porque é importante para este momento. Não é a primeira vez que nos inscrevemos, mas é a primeira vez que é aprovado um valor tão alto", conta. O mesmo aconteceu com Rodrigo Aragão, diretor de "A Noite dos Chupacabras" e de "A Mata Negra".

Além disso, esse terreno fértil atrai grandes nomes consolidados no exterior. O diretor do filme "Morto não Fala", Dennison Ramalho, foi um dos cineastas que percebeu esse potencial brasileiro. “Morto não fala” estreia dia 10 de outubro, e retrata como o plantonista de um necrotério lida com um dom paranormal de se comunicar com os mortos, até ter segredos da própria vida revelados e despertar uma terrível maldição. Dessa forma, o longa aborda a questão da violência urbana, em uma tentativa de desenvolver um terror nacional. 

A oferta do filme "Morto não fala" no Shopping da Gávea no dia de estreia

Segundo o cineasta Matheus Jucá, o Brasil tem um potencial muito grande a ser explorado. Para ele, o folclore, sincretismos religiosos, e problemas do cotidiano servem como inspiração para o desenvolvimento de um horror caracteristicamente brasileiro. Percebe também que novos formandos em cinema mostram maior interesse e entusiasmo em desenvolver roteiros para esses filmes.

Arco do Telles no Rio de Janeiro, supostamente
assombrado pela Bruxa do Arco do Telles

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arco_do_Teles_-_RJ.jpg
Esse sentimento serve de contraponto com a pesquisa feita por Antônio Leão da Silva Neto em 2002, que contabilizou em seu Dicionário de filmes brasileiros que dos mais de 3 mil filmes de longa-metragem concluídos no Brasil, somente 20 haviam sido classificados como de terror pelos respectivos diretores, a fim de evitar que a rejeição do público fosse muito grande.

O roteirista José Joffily concorda que o Brasil, aos poucos, encontra uma identidade cinematográfica, tanto no filme de gênero quanto em geral. Para ele, essa temática mudou muito, e não se trata mais de sustos ou sangue, mas de um terror psicológico que busca despertar sensações e incômodos. Disse ainda, que há um novo respeito por esse tipo de conteúdo:

 “A crítica tem um papel muito importante na chancela da arte. Filmes de terror brasileiros eram considerados filmes B, então a crítica não falava deles. Isso torna muito difícil o desenvolvimento daquela produção, porque não se permite um exercício analítico de apreciação, mesmo que haja defeitos. A crítica também ajuda a identificar a qualidade da arte, e hoje, com esse viés conceitual, o terror é levado a sério, ” explica ele.

Joffily terminou a conversa numa reflexão preocupante. O cineasta sente que o período atual está complicado para qualquer produção cultural. O governo Bolsonaro promove um projeto de lei que visa um corte de 43% do orçamento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para 2020, e a censura que acompanha tem sido sistemática.

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